A inteligência artificial (IA) promete maior produtividade, mas com riscos para os mercados de trabalho. A consideração foi feita hoje pelo director-geral do Banco de Pagamentos Internacionais (BPI), Pablo Hernández de Cos, na assembleia geral anual da instituição, na cidade suíça de Basileia.

“O desenvolvimento da IA levanta questões fundamentais sobre o futuro do trabalho e a distribuição de rendimentos. Até agora, essas deslocações laborais tão drásticas ainda não ocorreram em grande escala, mas há sinais de que vão ocorrer ajustamentos”, advertiu Hernández de Cos.

Indústrias mais expostas à IA crescem menos em emprego

Segundo o responsável, as indústrias dos EUA com maior exposição à IA registaram um crescimento de emprego menor do que outras indústrias menos expostas. Por isso, o relatório anual do banco dos bancos centrais sublinha que a transição para uma economia mais produtiva impulsionada pela IA acarreta riscos.

Concretamente, a IA encontra aplicações em cada vez mais tarefas e ocupações, podendo intensificar a perda de emprego. Adicionalmente, ainda não está claro se a tecnologia cria novos empregos ou amplia suficientemente a procura dos existentes para compensar os postos destruídos.

Impacto na política monetária dependerá da evolução das tensões

As implicações para a política monetária dependerão de como estas tensões forem resolvidas. Se a IA aumentar a produtividade de forma permanente, a economia pode sustentar um crescimento do consumo mais elevado, fazendo subir a taxa de juro natural. Esta taxa, recorde-se, é aquela que nem impede nem impulsiona o crescimento económico.

Contudo, Hernández de Cos alertou para um cenário alternativo. “Se a automação induzida pela IA deslocar o rendimento do trabalho e do consumo, diminuindo os incentivos para inovar, um estrangulamento na procura pode tornar-se uma restrição vinculativa para o crescimento”, afirmou. Neste caso, a taxa natural dos bancos centrais seria mais baixa devido à queda da procura.

Efeitos contraditórios na inflação

A IA também tem implicações para a inflação, podendo tanto aumentá-la como reduzi-la, segundo o BPI. Por um lado, os enormes investimentos realizados em IA, principalmente nos Estados Unidos, criam pressões inflacionistas.

Concretamente, os cinco maiores híperescaladores, as maiores empresas de serviços de computação em nuvem, como a Amazon, a Microsoft, a Google, a Oracle e a IBM, vão gastar mais de um bilião de dólares em investimentos relacionados com IA em 2025 e 2026, segundo números do BPI.

Risco de correcção brusca nos mercados financeiros

Até agora, a IA tem impulsionado o crescimento através de canais reais e financeiros. A questão central, contudo, é saber se este impulso pode ser mantido a longo prazo.

Segundo o relatório, pode ocorrer uma forte queda nos preços das acções de empresas relacionadas com a IA, caso as taxas de juro subam ou os resultados da tecnologia se revelem dececionantes. Consequentemente, este cenário também afectaria o crédito privado com o qual a IA é financiada, podendo endurecer significativamente as condições financeiras globais.